Tribos
pós-modernas
Seguindo
meu encantamento pela obra Apocalipse, de Michel Maffesoli, esse post é dedicado ao segundo capítulo do
livro, onde o autor situa os grupos, ou seja, as Tribos. Esse fragmento inicia
com tio Maffesa explicando que, há uma curiosa lógica sobre estarem elas, as Tribos,
ultrapassadas. Na verdade, elas estão mais presentes do que nunca e trazem
bagagem histórica.
Maffesoli
nos apostila que elas representam a formação de um vínculo social e que, quando
este satura-se, uma outra forma de estar-junto (re)nasce, chocando almas para
um (re)nascimento que, geralmente, mexe com a moral estabelecida. Desde que o
mundo é mundo, que os seres humanos, e até os animais, começaram a habitar o
planeta azulzinho, reuniões de viventes existem. Unem-se, e reúnem-se, por
pertencimento, por raça, por desejo de fazer parte de. Lembremos nos anos de
1960 o movimento Hippie, que trouxe uma contracultura sobre a destruição da natureza,
dos sujeitos. Falava sobre liberdade de expressão e trouxe para cena à máxima “Paz
e Amor” em oposição às bombas nucleares. Pregava o cultivo ambiental e, ainda,
colocou em prática o nudismo e a emancipação sexual. O modo de vida dessa Tribo,
que ganhou força no Brasil nos anos de 1970, era comunitário, buscando um
socialismo libertário, a partir de um estilo de vida nômade e em comunhão com a
natureza. Negavam o nacionalismo, tão forte no país tropical, que vivia seus
tempos mais sombrios com a Ditadura Militar, especialmente após 1968, com a
imposição do AI-5, que tolhia qualquer liberdade de expressão e pregava, de
forma cabresta, o cumprimento das leis governamentais, em nome de um
patriotismo obscuro, impulsionado pela moeda estadunidense. Uma Tribo formada
para ir contra o sistema capitalista, imposto não só no Brasil, mas em várias
partes do mundo, em desacordo ao estilo de vida da classe média, muito embora
vários de seus compositores, viessem de famílias de tal classificação.
Como
as Tribos explicadas por Maffesoli tem sua tona na contramão do sistema, ou
seja, tem relação com a política, compreendemos que já naquela época a
teatralização da cena pública foi objeto de abatimento, sendo contaminada pelo
lúdico. No que tange, especialmente, o período ditatorial, não foram só os Hippies
que surgiram com sua contracultura frente ao sistema da época. No Brasil, vemos
movimentos estudantis, de artistas, de mulheres e meios de comunicação. Na verdade,
a Ditadura Militar no Brasil, e em outras partes do mundo, representou um
enfrentamento tribal. Cada uma com suas peculiaridades, verdades e formas de
embate.
Esse
unir-se, que vem arrastando-se no mundo, chega a pós-modernidade. Elas, que são
barulhentas, precisam ser entendidas, uma vez que se apropriam de uma cultura
informacionista e dinâmica. Essa nova emergência do estar-junto, do tribalismo,
já cantado pelo grupo musical Tribalista, uma Tribo barulhenta, no começo dos
anos 2000, é ainda percebido como um antimovimento, que diz que não precisamos
fazer nada, a não ser quem realmente somos. Sermos seria uma forma de
tribalização. Captamos que na pós-modernidade, esse estar-junto, trazido pelas
Tribos, é também desconcertante. Vem junto a um processo de compensação, uma
vez que progressivamente ao esquecimento do choque cultural, a civilização
moderna se homogeneizou, e racionalizou-se em excesso. Onde a “intensidade de
ser se perde quando a domesticação generaliza”. Ao final de um ciclo, o
mecanismo de compensação entra em atividade e aos poucos a heterogeneidade
ganha espaço, tirando de cena a razão soberana e colocando em ação o sentimento
de cabermos. Essa efervescência, que estrutura a comunidade, retorna com força
de protagonismo social. Da domesticação à selvageria, retomando o primitivo, o
passado, que tanto foi dito no texto anterior. Deixamos de lado, no
momento que buscamos o estar-junto, quando vamos para a Tribo, as diretrizes
dominantes, imposta pelos braços do político religioso e tecnoestruturalista da
hipocrisia, que é o adubo da vida ocidental.
Vejamos
o que aconteceu no período da Inquisição (século XIII ao século XIX), que em
nome de Deus queimava nas fogueiras mulheres – e até homens – em praça pública,
por manifestarem a fé de maneira diferente da Igreja Católica, como se ela
fosse a única possuidora das energias e verdades divinas do criador. O fanatismo
aí permitiu que valores específicos se tornassem universais, onde as Tribos
dominantes eliminavam as Tribos menores. A lei de Darwin em operação, onde
sobrevive o mais forte. Aí está um exemplo da motivação dos (falsos) moralistas
que é nada mais, nada menos, que o poder. Seja esse poder simbólico, econômico
ou político, a verdade é que, como nos coloca Maffesoli, esse é “o fim normal
da filosofia da história e das filosofias morais”. Essas manifestações de moral
sempre estão em nome do Bem, do Ideal, do Humano, da Classe e de entidades
abstratas que cometem, em nome da (sua) verdade, as maiores selvajarias. Outro exemplo,
em nome da verdade absoluta, foi o Holocausto, que eliminou cerca de seis milhões
de judeus, na Alemanha. Um extermínio étnico do governo nazista de Adolf
Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial (1933 a 1945). Mas não só judeus
sofreram esse assassinato em massa, em nome da fé e da verdade fragmentada. Na lista
estavam ainda os ciganos e pessoas com deficiência. Tribalismo primitivo, onde
o estar-junto maior, eliminava aqueles que não racionalizavam de acordo com sua
moral e “bons costumes”.
Foram
essas ações que, ao olharmos o passado, constitui nossa memória social, que compõe
a coluna do homem moderno e que ainda pertence ao pensamento das instituições
sociais. E, desse enfado urbano e moral, surgem as Tribos pós-modernas, sendo
ao mesmo tempo, causa e efeito. Algumas desejam resgatar valores, que em alguns
casos retoma as tradições religiosas e sua carga de moral, já outras buscam
nesse rememorar do passado, o exercício da solidariedade repensando a ética e o
estar-junto, como uma forma de não retornar a ações primitivas destruidoras.
Nesse
paradigma pós-moderno tribal, e retomo aqui o exemplo da música dos
Tribalistas, grupo que se formou para gravar um manifesto musical, onde dizia
que esse “tribalismo deve e pode ser o que você quiser, não tem que fazer nada,
basta ser o que se é, chegou o tribalismo, mão no teto e chão no pé”. Passam as
Tribos, então, a ser um objeto inseparável de seu movimento, de suas crenças,
que podem ser expostas de maneira sofisticada ou trivial, mas que acarretam a
real contemplação do mundo seja pelos prazeres do corpo, do jogo, do presente,
mas uma maneira de manifestar-se não querendo ser calado. É um resgate da
liberdade para existir valorativamente. Esse é o objetivo das Tribos,
pertencimento a algo, sem imposições adversas. Eles desejam uma aceitação e
vivência de uma terra na terra. Maffesoli nos coloca que seus ensejos são
estruturados pelo “deixa fazer”, “deixa viver”, “deixa ser”, bastando ser o que
é.
Frente
à isso, o autor nos ilustra que o modernismo que finda, tem em sua essência
desvendar o corpo social, formado pelo legado dos antepassados. Por proibições de
toda ordem terem retirado do corpo individual e coletivo a capacidade de
produção de reações necessárias para sobrevivência. As Tribos vêm e apresentam
uma intensa estimulação nervosa, tônica da pós-modernidade, mostrando que somos
capazes de produzir uma organização de coisas opostas. Nessa efervescência contemporânea,
alguns movimentos podem desgostar ou chocar os núcleos institucionais sociais. Mas
enxergamos, nos dias de hoje, mesmo em meio ao egoísmo, ao individualismo, um
paralelo e, unido à isso, uma bondade intrínseca do ser humano, aonde a terra é
desejável para ele, sua Tribo, e todas as demais formas de estar-junto, com
respeito.
É
a reformulação da casa comunitária, sendo a terra, em todas as suas extensões,
esse ambiente, algo proposto pelos Hippies nos anos 60 e colocado no início
desse texto. O incomodo que nos move individualmente ganha movimento pelo
coletivo, pois a partir da tribalização, sabemos que outros sujeitos têm os
mesmos sentimentos. E, com o fim do primitivismo de valores, ou seja, com o fim
do ciclo ditatorial, inquisitório e hitlleriano, aprendemos com as histórias
humanas que nada é eterno e que as formas organizacionais centralizadoras
jazem, hoje, no cemitério das realidades.
Há,
na constituição das Tribos pós-modernas, uma solidariedade orgânica, onde
Maffesoli no mostra que ao contrário da solidariedade mecânica, o ideal é
comunitário, onde a pós-modernidade nos traz a sinergia do arcaico com o
desenvolvimento tecnológico, abrindo, pela era em rede, mais um espaço de
constituição tribal. Utilizamos, então, o resgate mecanicista do passado, que
estrutura a tecnologia, para um pluralismo pós-moderno proporcionando a
vivência dos opostos, tônica desse estar-junto. Todos pertencem e tem o
direito. E, por essa convivência dual, nunca a sociedade esteve tão exposta, seja
institucionalmente, seja pela representação individual do sujeito, seja
organizacional. O espaço urbano deixou de ser somente a rua, para ser a rede,
onde todos se encontram no universo online, mas onde as regras da solidariedade
orgânica está presente.
As
Tribos pós-modernas não aceitam mais o que é dito de forma duvidosa, elas hoje,
devido ao processo mecanicista da tecnologia, interagem de forma direta com o
que agrada e o que desagrada. Um exemplo é o flash-mob, testemunhando a construção e desconstrução no espaço que
Maffesoli chama de urbano e virtual. Esse universo em rede veio para comprovar
a capacidade de interação possível na era mecanicista, a parir de um sítio
compartilhado e livre, que coloca a disposição não só das Tribos, mas de todas
as instituições sociais, técnicas interativas, em um ambiente lúdico, de
relacionamento ilimitado e solidário. E isso, representa novas formas de
generosidade, onde as mútuas formas reorganizam novas Tribos, e retomam uma
ordem simbólica de pertencimento.
Nesses
ambientes, a incerteza dá lugar a busca por respostas e a avaliação do conteúdo
encontrado, seja ele de que espécie for. Há um risco entre o público e o
privado. Há uma avalanche de opinião pública em combate com a opinião publicada.
Percebemos que a pós-modernidade está além das nossas certezas valorativas. Ao prestarmos
atenção na humanidade simulada nesses ambientes, captamos o simbólico do
inaparente das aparências, constituindo uma terra fértil do estar-junto, que
cresce e manifesta, não mais uma contracultura, mas uma cultura partícipe e
possível, pois o que mais oculto está, banaliza-se por sua simplicidade. A intuição
entra em ação e penetra o núcleo fatídico das coisas sem se deixar dominar pela
instrumentalização da modernidade, mas como uma forma de fecundar o estar-junto
pós-modernos em uma comunidade de todos para todos. E, iniciam-se novos jogos
simbólicos, ainda formatados pelo poder.

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