domingo, 27 de abril de 2014

Escavador de ideias




A terceira e última parte da obra de Morin, Apocalipse, vem com o título “Rumo a guerra civil?”. Aqui, o autor começa falando da importância de ilustrar as coisas, para que seja empregado, por escritores e pensadores, ajustes um de palavras, carregados de intrepidez de boa qualidade.

Para Morin, o trabalho do pensamento consiste em transfigurar o que vemos e pressentimos, como um escavador de ideias. “Fazer brilhar a ideia escavando, como fazemos faíscas com a pedra na qual batemos. É assim que podemos prestar atenção na invencível memória que, indomavelmente, perfura ao mesmo tempo o corpo individual e o corpo coletivo” (MORIN, 2010, p. 62).

Para ele, é por meio das palavras que ilustram o passado, que estaremos capacitados a compreender as revoluções que são cíclicas em nossa sociedade. É preciso que, ao obtermos essa estética de passado, por meio da linguagem, deixemos para trás o linearismo mecânico, um progressismo ingênuo, relegado às eras obscuras da infância da humanidade. Para ele, se desejamos convergir, precisamos reencontrar as raízes profundas da natureza humana, como as emoções, os instintos, as paixões e afeições, uma vez que elas são os fertilizantes da diversidade cultural que vemos superficialmente nos dias de hoje. É a partir dessa reunião múltipla, que será permitida a emergência do sujeito e de sua liberdade, levando em conta o real e o racional, que nem sempre são sinônimos, para percebermos a base onde repousa o conceito central da opinião sábia, os entremeios entre natureza e cultura, o corpo e o espírito, a infraestrutura e a superestrutura, que nos faça lançar um olhar mais profundo entre a razão e o sensível.

Morin explica que, é no abafamento das compreensões que vive o individualismo próprio da burguesia moderna e que são a causa do efeito do estar junto puramente racional. Porém, e necessário apreender o sujeito como a mescla do racional e do emocional e, para tanto, ele se perceber como tal. Ao compreendermos o todo, chegamos perto da compreensão do movimento emocional que está retornando.

Morin ainda aponta que as elites fazem o papel de fanfarrões escondidos, esteticamente ligados a anões de jardim, com falsas pregações. Aqui ele faz um paralelismo com falsos professores, onde ele mostra o uso indevido da posição em que ocupam – o poder legítimo de falar – mas ao invés de usarem sua força da palavra, da escrita, da organização para o bem comum, a utilizam para dirigir o mundo a um fim sem perceber o pulsar do mundo que se inicia. Esses sujeitos surtam e saturam-se ao perceber que as ideias oficiais, as que eles possuem como única verdade – como a igreja católica professou e, também, governos ditatoriais – tornam-se impertinentes, levando outros sujeitos a se confrontarem com uma representação fictícia do real.

Esses sujeitos banhados de passado escrevem teorias incendiárias, evitando a batalha dos ingênuos, fazendo com que esses últimos fiquem amordaçados e incapazes de colocar em prática sonhos de emancipação. E essas teorias, que levam indivíduos ao congelamento, tem base em teorias de outras épocas. Desta feita, o totalitarismo continua, conforme Morin, inteiro e atuante entre os que julgam o que é função e o que deveria ser, em emprego do que eles gostariam que fosse. “Nesse sentido, as elites plenas de ressentimentos em relação ao simples prazer de ser ou às alegrias comuns da vida cotidiana baseiam sua estrutural melancolia nesta antiga concepção augustiana, considerando que o mundo é imundo” (MORIN, 2010, p. 69).

As teorias da emancipação do século XIX, como o marxismo, são substituídas ao polirem as armas críticas contra infâmia existente. Já o freudismo considerará o sujeito esclarecido por ser um “cavaleiro do ódio”, o sujeito que nega, e essa é sua construção enquanto homem, que sempre nega o que é, como esclarece Morin.

Em tempo, o autor aponta que “experts” de todos os gêneros exoram o dualismo mortífero entre o Bem e o Mal, o Verdadeiro e o Falso, o Justo e o Injusto, o Perfeito e o Imperfeito, Civilização e Barbárie, em uma verdadeira litania. E, frente a criação dessa dicotomia, esses sujeitos deveriam encarnar os dois lados que propõem. Há, portanto, falta de viver, apreciar com correção esse vivido e, principalmente, encontrar palavras que exprimam bem as coisas. Os poderosos da palavra estão, dessa forma, deturpando os sentidos e reproduzindo sensações de pânico, menos valia e inanição. E, em consequência, o mundo conectado reproduz, a falta de compreensão do todo, através da expressão dos demais indivíduos, componentes do cosmos que veem os postuladores como espelhos.

É preciso, conforme Morin acentuar o qualitativo da existência, fazer da vida uma obra de arte. Vemos que desde o período do Quatrocento – surgido fortemente na França e que foi um início para manifestação cultural – ao Renascimento – com forte bagagem da Itália, onde o sujeito passou a ser visto como centro do universo e não apenas a religião – que a história humana, protagonista por indivíduos reais, é o motor principal da cultura.

É preciso levar em consideração, e, portanto dar espaço e importância, para a ideia criativa, pois é ela que move profundamente o imaginário social, as artes dos períodos Quatrocento e Renascentista, mostram isso. Desta feita, Morin conta-nos que o inconsciente coletivo necessita de aventura que nos faz abrir os olhos para o fato de que a vida é uma obra social em construção e que, sentimos esse choque na pós-modernidade, uma vez que os jovens expandem-se para uma aventura tanto existencial, quanto profissional, e isso colide valores, resultando em uma não aceitação. Para buscarem seu espaço, esses jovens constroem as tribos urbanas e são compostos por modos mutantes, adornos chamativos e linguagem própria anunciando uma abertura de mundo. Isso se relaciona de uma criação confusa, de mensagem específica, mas que sublinha o fato de que um novo paradigma está em construção.

A busca dessas tribos incompreendidas são, e historicamente estarão, se pensarmos em movimentos jovens como os Hippies nos anos de 1970, a integralidade da pessoa e coisas que evocam mais aos sentimentos do que a simples razão. Esse confronto não é bem compreendido e, portanto, não bem aceito, por todos os atores sociais. O que leva ao embate, mas altera significativamente o modo de vida de nosso século.

As gerações passadas tem menosprezo pelo que lhe é oposto. Com foco no racional, eles não buscam compreender o embalo emocional trazido pelas tribos. Não abarcam o significado de fãs, não percebem seus colegas de trabalho, nessa mescla não só na zona urbana, mas profissional. Utilizam-se das ferramentas pós-modernas, propostas por esses jovens, curtem e compartilham, mas estão escondidos em seus castelos de areia, não alcançando que as zonas de convivência permeiam o real e o virtual e que ambos quase se tornam a mesma coisa.


O ideal da pós-modernidade é o estar junto, independente da plataforma, e esse movimento tem vindo dessas tribos, do seus ganhos de espaço, voz e força para humanização do sujeito, de seus direitos e deveres. Há uma mudança e uma troca de pele em curso. Está em andamento a autóctone – algo vinculado a essa terra, a sua preservação e também, unido ao sensível, aos humores individuais e sociais, onde todos ocupando o mesmo lugar. Precisamos lançar um olhar atendo a essas tribos, à esses fãs e perceber a essência em nome de um bem comum, que traga o emocional para perto e apreendermos, a nós e ao outro, como tecido social (e pessoal) dotado de razão e emoção e não sejamos escravo das ideias. 



sábado, 7 de dezembro de 2013

Falemos sobre Tribos

Tribos pós-modernas


Seguindo meu encantamento pela obra Apocalipse, de Michel Maffesoli, esse post é dedicado ao segundo capítulo do livro, onde o autor situa os grupos, ou seja, as Tribos. Esse fragmento inicia com tio Maffesa explicando que, há uma curiosa lógica sobre estarem elas, as Tribos, ultrapassadas. Na verdade, elas estão mais presentes do que nunca e trazem bagagem histórica.

Maffesoli nos apostila que elas representam a formação de um vínculo social e que, quando este satura-se, uma outra forma de estar-junto (re)nasce, chocando almas para um (re)nascimento que, geralmente, mexe com a moral estabelecida. Desde que o mundo é mundo, que os seres humanos, e até os animais, começaram a habitar o planeta azulzinho, reuniões de viventes existem. Unem-se, e reúnem-se, por pertencimento, por raça, por desejo de fazer parte de. Lembremos nos anos de 1960 o movimento Hippie, que trouxe uma contracultura sobre a destruição da natureza, dos sujeitos. Falava sobre liberdade de expressão e trouxe para cena à máxima “Paz e Amor” em oposição às bombas nucleares. Pregava o cultivo ambiental e, ainda, colocou em prática o nudismo e a emancipação sexual. O modo de vida dessa Tribo, que ganhou força no Brasil nos anos de 1970, era comunitário, buscando um socialismo libertário, a partir de um estilo de vida nômade e em comunhão com a natureza. Negavam o nacionalismo, tão forte no país tropical, que vivia seus tempos mais sombrios com a Ditadura Militar, especialmente após 1968, com a imposição do AI-5, que tolhia qualquer liberdade de expressão e pregava, de forma cabresta, o cumprimento das leis governamentais, em nome de um patriotismo obscuro, impulsionado pela moeda estadunidense. Uma Tribo formada para ir contra o sistema capitalista, imposto não só no Brasil, mas em várias partes do mundo, em desacordo ao estilo de vida da classe média, muito embora vários de seus compositores, viessem de famílias de tal classificação.

Como as Tribos explicadas por Maffesoli tem sua tona na contramão do sistema, ou seja, tem relação com a política, compreendemos que já naquela época a teatralização da cena pública foi objeto de abatimento, sendo contaminada pelo lúdico. No que tange, especialmente, o período ditatorial, não foram só os Hippies que surgiram com sua contracultura frente ao sistema da época. No Brasil, vemos movimentos estudantis, de artistas, de mulheres e meios de comunicação. Na verdade, a Ditadura Militar no Brasil, e em outras partes do mundo, representou um enfrentamento tribal. Cada uma com suas peculiaridades, verdades e formas de embate.

Esse unir-se, que vem arrastando-se no mundo, chega a pós-modernidade. Elas, que são barulhentas, precisam ser entendidas, uma vez que se apropriam de uma cultura informacionista e dinâmica. Essa nova emergência do estar-junto, do tribalismo, já cantado pelo grupo musical Tribalista, uma Tribo barulhenta, no começo dos anos 2000, é ainda percebido como um antimovimento, que diz que não precisamos fazer nada, a não ser quem realmente somos. Sermos seria uma forma de tribalização. Captamos que na pós-modernidade, esse estar-junto, trazido pelas Tribos, é também desconcertante. Vem junto a um processo de compensação, uma vez que progressivamente ao esquecimento do choque cultural, a civilização moderna se homogeneizou, e racionalizou-se em excesso. Onde a “intensidade de ser se perde quando a domesticação generaliza”. Ao final de um ciclo, o mecanismo de compensação entra em atividade e aos poucos a heterogeneidade ganha espaço, tirando de cena a razão soberana e colocando em ação o sentimento de cabermos. Essa efervescência, que estrutura a comunidade, retorna com força de protagonismo social. Da domesticação à selvageria, retomando o primitivo, o passado, que tanto foi dito no texto anterior. Deixamos de lado, no momento que buscamos o estar-junto, quando vamos para a Tribo, as diretrizes dominantes, imposta pelos braços do político religioso e tecnoestruturalista da hipocrisia, que é o adubo da vida ocidental.

Vejamos o que aconteceu no período da Inquisição (século XIII ao século XIX), que em nome de Deus queimava nas fogueiras mulheres – e até homens – em praça pública, por manifestarem a fé de maneira diferente da Igreja Católica, como se ela fosse a única possuidora das energias e verdades divinas do criador. O fanatismo aí permitiu que valores específicos se tornassem universais, onde as Tribos dominantes eliminavam as Tribos menores. A lei de Darwin em operação, onde sobrevive o mais forte. Aí está um exemplo da motivação dos (falsos) moralistas que é nada mais, nada menos, que o poder. Seja esse poder simbólico, econômico ou político, a verdade é que, como nos coloca Maffesoli, esse é “o fim normal da filosofia da história e das filosofias morais”. Essas manifestações de moral sempre estão em nome do Bem, do Ideal, do Humano, da Classe e de entidades abstratas que cometem, em nome da (sua) verdade, as maiores selvajarias. Outro exemplo, em nome da verdade absoluta, foi o Holocausto, que eliminou cerca de seis milhões de judeus, na Alemanha. Um extermínio étnico do governo nazista de Adolf Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial (1933 a 1945). Mas não só judeus sofreram esse assassinato em massa, em nome da fé e da verdade fragmentada. Na lista estavam ainda os ciganos e pessoas com deficiência. Tribalismo primitivo, onde o estar-junto maior, eliminava aqueles que não racionalizavam de acordo com sua moral e “bons costumes”.

Foram essas ações que, ao olharmos o passado, constitui nossa memória social, que compõe a coluna do homem moderno e que ainda pertence ao pensamento das instituições sociais. E, desse enfado urbano e moral, surgem as Tribos pós-modernas, sendo ao mesmo tempo, causa e efeito. Algumas desejam resgatar valores, que em alguns casos retoma as tradições religiosas e sua carga de moral, já outras buscam nesse rememorar do passado, o exercício da solidariedade repensando a ética e o estar-junto, como uma forma de não retornar a ações primitivas destruidoras.

Nesse paradigma pós-moderno tribal, e retomo aqui o exemplo da música dos Tribalistas, grupo que se formou para gravar um manifesto musical, onde dizia que esse “tribalismo deve e pode ser o que você quiser, não tem que fazer nada, basta ser o que se é, chegou o tribalismo, mão no teto e chão no pé”. Passam as Tribos, então, a ser um objeto inseparável de seu movimento, de suas crenças, que podem ser expostas de maneira sofisticada ou trivial, mas que acarretam a real contemplação do mundo seja pelos prazeres do corpo, do jogo, do presente, mas uma maneira de manifestar-se não querendo ser calado. É um resgate da liberdade para existir valorativamente. Esse é o objetivo das Tribos, pertencimento a algo, sem imposições adversas. Eles desejam uma aceitação e vivência de uma terra na terra. Maffesoli nos coloca que seus ensejos são estruturados pelo “deixa fazer”, “deixa viver”, “deixa ser”, bastando ser o que é.

Frente à isso, o autor nos ilustra que o modernismo que finda, tem em sua essência desvendar o corpo social, formado pelo legado dos antepassados. Por proibições de toda ordem terem retirado do corpo individual e coletivo a capacidade de produção de reações necessárias para sobrevivência. As Tribos vêm e apresentam uma intensa estimulação nervosa, tônica da pós-modernidade, mostrando que somos capazes de produzir uma organização de coisas opostas. Nessa efervescência contemporânea, alguns movimentos podem desgostar ou chocar os núcleos institucionais sociais. Mas enxergamos, nos dias de hoje, mesmo em meio ao egoísmo, ao individualismo, um paralelo e, unido à isso, uma bondade intrínseca do ser humano, aonde a terra é desejável para ele, sua Tribo, e todas as demais formas de estar-junto, com respeito.

É a reformulação da casa comunitária, sendo a terra, em todas as suas extensões, esse ambiente, algo proposto pelos Hippies nos anos 60 e colocado no início desse texto. O incomodo que nos move individualmente ganha movimento pelo coletivo, pois a partir da tribalização, sabemos que outros sujeitos têm os mesmos sentimentos. E, com o fim do primitivismo de valores, ou seja, com o fim do ciclo ditatorial, inquisitório e hitlleriano, aprendemos com as histórias humanas que nada é eterno e que as formas organizacionais centralizadoras jazem, hoje, no cemitério das realidades.

Há, na constituição das Tribos pós-modernas, uma solidariedade orgânica, onde Maffesoli no mostra que ao contrário da solidariedade mecânica, o ideal é comunitário, onde a pós-modernidade nos traz a sinergia do arcaico com o desenvolvimento tecnológico, abrindo, pela era em rede, mais um espaço de constituição tribal. Utilizamos, então, o resgate mecanicista do passado, que estrutura a tecnologia, para um pluralismo pós-moderno proporcionando a vivência dos opostos, tônica desse estar-junto. Todos pertencem e tem o direito. E, por essa convivência dual, nunca a sociedade esteve tão exposta, seja institucionalmente, seja pela representação individual do sujeito, seja organizacional. O espaço urbano deixou de ser somente a rua, para ser a rede, onde todos se encontram no universo online, mas onde as regras da solidariedade orgânica está presente.

As Tribos pós-modernas não aceitam mais o que é dito de forma duvidosa, elas hoje, devido ao processo mecanicista da tecnologia, interagem de forma direta com o que agrada e o que desagrada. Um exemplo é o flash-mob, testemunhando a construção e desconstrução no espaço que Maffesoli chama de urbano e virtual. Esse universo em rede veio para comprovar a capacidade de interação possível na era mecanicista, a parir de um sítio compartilhado e livre, que coloca a disposição não só das Tribos, mas de todas as instituições sociais, técnicas interativas, em um ambiente lúdico, de relacionamento ilimitado e solidário. E isso, representa novas formas de generosidade, onde as mútuas formas reorganizam novas Tribos, e retomam uma ordem simbólica de pertencimento.


Nesses ambientes, a incerteza dá lugar a busca por respostas e a avaliação do conteúdo encontrado, seja ele de que espécie for. Há um risco entre o público e o privado. Há uma avalanche de opinião pública em combate com a opinião publicada. Percebemos que a pós-modernidade está além das nossas certezas valorativas. Ao prestarmos atenção na humanidade simulada nesses ambientes, captamos o simbólico do inaparente das aparências, constituindo uma terra fértil do estar-junto, que cresce e manifesta, não mais uma contracultura, mas uma cultura partícipe e possível, pois o que mais oculto está, banaliza-se por sua simplicidade. A intuição entra em ação e penetra o núcleo fatídico das coisas sem se deixar dominar pela instrumentalização da modernidade, mas como uma forma de fecundar o estar-junto pós-modernos em uma comunidade de todos para todos. E, iniciam-se novos jogos simbólicos, ainda formatados pelo poder. 





terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Apocalipse


Inicio essa plataforma para inserção e discussão de conteúdo correndo um risco: falar de um grande sociólogo, a partir da leitura de sua obra: Michel Maffesoli. Um desafio nada fácil e, com certeza, a seguir, uma narrativa rasa do tanto que esse pesquisador contribuir com a área de ciências humanas.









Sejam bem-vindos e sintam-se à vontade!



Opinião pública/opinião publicada



Durante meu período de mestrado, tive contato com a Sociologia Compreensiva, método postulado por Maffesoli. A gente meio que se apaixonou, mas né? Meu projeto dissertativo estava em curso e meu status era de um relacionamento sério com Roland Barthes. Não nos separamos, obviamente, mas estamos hoje, em um relacionamento aberto. Muito embora eu continue sendo uma viúva de Barthes. Enfim, divagações a parte, vamos ao que interessa.

Durante o XII Seminário Internacional de Comunicação, assisti um GT sobre Sociologia da Imagem e Imaginários. Foi então que resolvi sair daquela sala e passar na livraria para levar o tio Maffesa para casa. O único exemplar de obras do autor disponível na então vendedora de livros em que fui, era “Apocalipse. Opinião Pública e Opinião Publicada”, de 2010, pela Editora Sulina. Então, ele veio comigo.

Um livro curto de páginas, mas intenso em seu conteúdo, é capitulado em Opinião pública/opinião publicada; Tribos pós-modernas e; Rumo à guerra civil?

Na primeira parte, Opinião pública/opinião publicada, a qual escriturarei, o autor faz uma volta ao passado, nos lembrando de que estamos contaminados pelas ideias vindas dos séculos XVIII e XIX, onde engolimos um conformismo lógico, favorecendo a preguiça intelectual, resultando em uma inquisição produzida pelas épocas, em nome do fechamento dogmático e a cerca que limita a ampliação do imaginário. Compreendemos então que nesse livro, o que Maffesoli chama de publicada é uma opinião que pretende ser uma ciência evidente para domesticar as consciências. Já a pública é carregada de humanidade e não tem ideia de sua fragilidade.

Desta forma, na era pós-moderna nos cabe compreender, aceitar e ser parte de uma então opinião pública, por ser ela algo mais próximo de um real. Já, tudo aquilo que é publicado, martela, ainda, ideias convencionais e reforça uma espiral do silêncio. E, de quebra, traz ainda consigo o off da informação. Ou seja, a negação do pronunciamento seja de uma marca, de um indivíduo ou de um governo. E, como a opinião publicada está por todas as esferas midiáticas, é preciso retomar alguns valores para que então resgatemos o vinculo social. Será a partir deste que formaremos ligações na sociedade pós-moderna. Essa retomada, na opinião de Maffesoli, só tem sido oportunizada a partir da eclosão das crises, tão comuns na era em rede. Estamos tão mais expostos, pouco entendendo que os riscos são bem maiores. Para retomarmos a credibilidade, pensando pelo lado das marcas, é preciso que resgatemos os valores que deram origem a nossa organização.

Maffesoli explica que a crise acontece quando não podemos mais dizer, quando chegamos a um ponto sem consciência valorativa e, portanto, não representamos confiança a partir de vínculos sociais. Como um relacionamento amoroso, os elementos que sustentavam essa relação desabaram. Essa conjuntura se dá após uma aceleração demasiada, em uma emissão de energia tão intensificada de individualidade, o que no caso das organizações é o lucro, que o corpo atinge o seu apogeu e se desmancha. Organizações que sustentam por muitos anos, e em alguns casos poucos meses, produtos estrela, dentro de sua Matriz Swot, é um exemplo. Vemos que as análises de pontos fortes e fracos, oportunidades e ameaças passaram a ser segundo plano e, consequentemente, os sujeitos que consomem essa marca. Ao deixar de lado esses indivíduos, os laços realmente se rompem ao primeiro sinal de fraqueza. E, na rede, tomam proporções alarmantes, que riscam não apenas a identidade do produto, como a imagem da marca.

Abrangendo ainda o que Maffesoli nos fala da civilização como tesouro cultural, e que, ao retomarmos as fontes, os fundamentos seremos capazes de inverter a representação em cultura, entendemos a necessidade de criar ambientes de convívio e estabelecimento de vínculos que façam o estar-junto fundamental. Aqui, dentro de uma sociedade, podemos visualizar as organizações como representações sociais, de uma civilização composta por sujeitos dentro e fora da instituição. Assim, as empresas seriam pequenas civilizações, compostas por pessoas. E essas estão dentro e fora, e, em alguns casos, em períodos compatíveis. No caso de uma crise, o sujeito interno da marca, também é um representante da civilização externa. Ele é dual. E, portanto, é preciso em um momento crítico, repensarmos o posicionamento valorativo, não apenas organizacional, como comportamental. Percebemos que, o Apocalipse do qual Maffesoli trata é o da revelação das coisas, de uma opinião publicada aproximada de uma opinião pública. Em situações de conflito, há a oportunidade de intuirmos o que não era visto entre e pelos sujeitos, o que em um mundo conectado, otimiza zonas conflituosas e referencias negativas, bem como positivas. E, esse resgate aos fundamentos é a chance de, por meio de uma opinião publicada próxima à pública, responder a civilização interna e externa, por meio de ações que possibilitem o estar-junto.
Esse Apocalipse eclode, uma vez que os sinais estão enraizados na terra, trazidos pela mobilidade e desejo de instantaneidade dos indivíduos. São essas características da sociedade pós-moderna e não podem ser negadas. É preciso fazer o resgate do passado, proposto por Maffesoli, e também por Barthes, Mário Vargas Llosa e Edgar Morin, para poder pensar o para frente. O resultado, nos aclara por meio da observação de uma germinação e floração de um espírito romântico, passível da criação e manutenção do estar-junto, a partir de uma adaptação social. Esse romântico pode ser expresso em sensibilidade ecológica e gerar um pertencimento civilizatório para o bem ou para o mal. E essa germinação e seu entendimento, são realizados a partir da compreensão do sentido literal, que remete à beleza das coisas, como foi durante os anos 50, a partir da emergência do design. O design foi capaz de preservar o objeto cotidiano, enquanto funcionalidade, perpetuando sua existência a partir das significações que foi gerando nos momentos de existência desde seu explosivo aparecimento. As provas estão nos museus que mostram a sacralidade própria da sociedade. Dentro desses locais vemos pedaços de mundo que beneficiam a aura da civilização a partir do tratamento respeitoso que tiveram.

Estamos em uma era desenvolvimentista que precisa pensar o envolvimentismo, onde é necessário aproveitar a terra, como os antepassados, para não violentá-la a qualquer custo, como temos feito. Na pós-modernidade, a ética do estético está em gestação, como esteve no passado do design, para estabelecer vínculos a partir do compartilhamento de emoções e belezas, que são provocadas. As marcas são capazes de fazer isso, não só pelo seu respeito social, mas pelas narrativas carregadas de valores humanos. Uma forma de estético. É preciso que, desta forma, possamos construir um ethos, a partir de usos e costumes originados em lugar preciso, recompondo uma ética, que ainda vem carregada de imoralidade. Mas esse é o vínculo capaz de construir estéticas não só de imagens, mas de relacionamentos, para compartilhar emoções e, ainda, paixões coletivas. A pós-modernidade é isso, do individual para o coletivo.

E, nesse emocional, nesse passional, nos interliga aos ambientes específicos de uma Tribo, como diz Maffesoli. A partir do climatológico, compreenderemos as especificidades não só das Tribos as quais pertencemos, mas as demais que compõem a cultura pós-moderna, como as religiosas, as musicais, sexuais e tantas outras. É uma mudança de pele, de uma época. Ao mudar de pele, é retomada a viscosidade de uma superfície estética, mas que em seu interior abriga dinamismo, prazer teimosia, irritabilidade e um desejo surpreendente de viver e de ser uma opinião pública considerada.

Essas Tribos descolam-se da cultura-cristã para comporem narrativas e situações sobre o que realmente acreditam. Imposições não geram mais resultados. A dinâmica proposta para a sociedade do século XIX, onde a coletividade perfeita era aquela que não deixava dúvidas, onde as evidências não eram evidentes, está com os dias contados. Por isso, a importância do estar-junto, do criar relacionamentos entre as Tribos, de as marcas estarem em consonância com a Tribo que é sua fã. As identidades carecem compreender o que Maffesoli postula como societal, que é outra maneira do estar-junto, que traz o imaginário, o onírico, o lúdico para o lugar principal dessa cena. É perceber a sociabilidade específica da expressão das Tribos e ir para esse encontro trazendo a vitalidade irrepreensível e resultando na orgia. Uma orgia de paixões, importância das emoções, onde a força dos sonhos será o cimento coletivo da civilização.

Outra lógica está em prática, que diz respeito à força do social, das Tribos, perante os protagonismos isolacionistas do passado. E se, a ela liga-se como um fã de tal marca, é porque a emoção está presente. Levemos em conta, ainda que a união de um indivíduo a uma Tribo já é uma maneira de pertencer. É imperioso apreender o mundano desses sujeitos, dentro e fora das organizações, partícipes de várias Tribos, percebendo a substituição do produtivismo moderno para a atmosfera lúdica dos indivíduos que compõem a civilização e que são produtores das micro-civilizações, aqui exemplificadas pelas organizações. Essas últimas que são uma configuração de representação social e cultural do todo, onde a marca é uma identidade interna e externa que perde seu espaço temporal e territorial, na concepção pós-moderna.

Nesse apanhado do primeiro capítulo, que traz não só a proposta do resgate valorativo do passado, mas o faz, compreendemos que as marcas estão postas mas indispostas, ainda, em termos culturais de abertura, para compreender os anseios daqueles sujeitos que integram sua produtividade mas querem, e podem, ser partícipes da construção do lúdico e do romântico. As narrativas organizacionais ainda tem a tendência de levar para fora valores não aplicados dentro de sua micro-civilização. Porém, a geração pós-moderna está dentro e fora das empresas. E há uma nova reflexão a ser feita desse novo comportamento humano, dessas novas urgências, necessidades e papéis sociais. É preciso praticar um re-design civilizatório.


Após tanta escrita, o próximo post contemplará a segunda parte de Maffesoli, que trata especificamente das Tribos pós-modernas.