A
terceira e última parte da obra de Morin, Apocalipse, vem com o título “Rumo a
guerra civil?”. Aqui, o autor começa falando da importância de ilustrar as
coisas, para que seja empregado, por escritores e pensadores, ajustes um de
palavras, carregados de intrepidez de boa qualidade.
Para
Morin, o trabalho do pensamento consiste em transfigurar o que vemos e
pressentimos, como um escavador de ideias. “Fazer brilhar a ideia escavando,
como fazemos faíscas com a pedra na qual batemos. É assim que podemos prestar
atenção na invencível memória que, indomavelmente, perfura ao mesmo tempo o
corpo individual e o corpo coletivo” (MORIN, 2010, p. 62).
Para
ele, é por meio das palavras que ilustram o passado, que estaremos capacitados a
compreender as revoluções que são cíclicas em nossa sociedade. É preciso que,
ao obtermos essa estética de passado, por meio da linguagem, deixemos para trás
o linearismo mecânico, um progressismo ingênuo, relegado às eras obscuras da
infância da humanidade. Para ele, se desejamos convergir, precisamos
reencontrar as raízes profundas da natureza humana, como as emoções, os instintos,
as paixões e afeições, uma vez que elas são os fertilizantes da diversidade cultural
que vemos superficialmente nos dias de hoje. É a partir dessa reunião múltipla,
que será permitida a emergência do sujeito e de sua liberdade, levando em conta
o real e o racional, que nem sempre são sinônimos, para percebermos a base onde
repousa o conceito central da opinião sábia, os entremeios entre natureza e
cultura, o corpo e o espírito, a infraestrutura e a superestrutura, que nos
faça lançar um olhar mais profundo entre a razão e o sensível.
Morin
explica que, é no abafamento das compreensões que vive o individualismo próprio
da burguesia moderna e que são a causa do efeito do estar junto puramente
racional. Porém, e necessário apreender o sujeito como a mescla do racional e
do emocional e, para tanto, ele se perceber como tal. Ao compreendermos o todo,
chegamos perto da compreensão do movimento emocional que está retornando.
Morin
ainda aponta que as elites fazem o papel de fanfarrões escondidos,
esteticamente ligados a anões de jardim, com falsas pregações. Aqui ele faz um
paralelismo com falsos professores, onde ele mostra o uso indevido da posição
em que ocupam – o poder legítimo de falar – mas ao invés de usarem sua força da
palavra, da escrita, da organização para o bem comum, a utilizam para dirigir o
mundo a um fim sem perceber o pulsar do mundo que se inicia. Esses sujeitos
surtam e saturam-se ao perceber que as ideias oficiais, as que eles possuem
como única verdade – como a igreja católica professou e, também, governos
ditatoriais – tornam-se impertinentes, levando outros sujeitos a se
confrontarem com uma representação fictícia do real.
Esses
sujeitos banhados de passado escrevem teorias incendiárias, evitando a batalha
dos ingênuos, fazendo com que esses últimos fiquem amordaçados e incapazes de
colocar em prática sonhos de emancipação. E essas teorias, que levam indivíduos
ao congelamento, tem base em teorias de outras épocas. Desta feita, o
totalitarismo continua, conforme Morin, inteiro e atuante entre os que julgam o
que é função e o que deveria ser, em emprego do que eles gostariam que fosse. “Nesse
sentido, as elites plenas de ressentimentos em relação ao simples prazer de ser
ou às alegrias comuns da vida cotidiana baseiam sua estrutural melancolia nesta
antiga concepção augustiana, considerando que o mundo é imundo” (MORIN, 2010,
p. 69).
As
teorias da emancipação do século XIX, como o marxismo, são substituídas ao
polirem as armas críticas contra infâmia existente. Já o freudismo considerará
o sujeito esclarecido por ser um “cavaleiro do ódio”, o sujeito que nega, e
essa é sua construção enquanto homem, que sempre nega o que é, como esclarece
Morin.
Em
tempo, o autor aponta que “experts” de todos os gêneros exoram o dualismo
mortífero entre o Bem e o Mal, o Verdadeiro e o Falso, o Justo e o Injusto, o
Perfeito e o Imperfeito, Civilização e Barbárie, em uma verdadeira litania. E,
frente a criação dessa dicotomia, esses sujeitos deveriam encarnar os dois
lados que propõem. Há, portanto, falta de viver, apreciar com correção esse
vivido e, principalmente, encontrar palavras que exprimam bem as coisas. Os poderosos
da palavra estão, dessa forma, deturpando os sentidos e reproduzindo sensações
de pânico, menos valia e inanição. E, em consequência, o mundo conectado
reproduz, a falta de compreensão do todo, através da expressão dos demais indivíduos,
componentes do cosmos que veem os postuladores como espelhos.
É
preciso, conforme Morin acentuar o qualitativo da existência, fazer da vida uma
obra de arte. Vemos que desde o período do Quatrocento – surgido fortemente na França
e que foi um início para manifestação cultural – ao Renascimento – com forte
bagagem da Itália, onde o sujeito passou a ser visto como centro do universo e
não apenas a religião – que a história humana, protagonista por indivíduos reais,
é o motor principal da cultura.
É
preciso levar em consideração, e, portanto dar espaço e importância, para a
ideia criativa, pois é ela que move profundamente o imaginário social, as artes
dos períodos Quatrocento e Renascentista, mostram isso. Desta feita, Morin
conta-nos que o inconsciente coletivo necessita de aventura que nos faz abrir
os olhos para o fato de que a vida é uma obra social em construção e que,
sentimos esse choque na pós-modernidade, uma vez que os jovens expandem-se para
uma aventura tanto existencial, quanto profissional, e isso colide valores,
resultando em uma não aceitação. Para buscarem seu espaço, esses jovens
constroem as tribos urbanas e são compostos por modos mutantes, adornos
chamativos e linguagem própria anunciando uma abertura de mundo. Isso se
relaciona de uma criação confusa, de mensagem específica, mas que sublinha o
fato de que um novo paradigma está em construção.
A
busca dessas tribos incompreendidas são, e historicamente estarão, se pensarmos
em movimentos jovens como os Hippies nos anos de 1970, a integralidade da
pessoa e coisas que evocam mais aos sentimentos do que a simples razão. Esse
confronto não é bem compreendido e, portanto, não bem aceito, por todos os
atores sociais. O que leva ao embate, mas altera significativamente o modo de
vida de nosso século.
As
gerações passadas tem menosprezo pelo que lhe é oposto. Com foco no racional,
eles não buscam compreender o embalo emocional trazido pelas tribos. Não abarcam
o significado de fãs, não percebem seus colegas de trabalho, nessa mescla não
só na zona urbana, mas profissional. Utilizam-se das ferramentas pós-modernas,
propostas por esses jovens, curtem e compartilham, mas estão escondidos em seus
castelos de areia, não alcançando que as zonas de convivência permeiam o real e
o virtual e que ambos quase se tornam a mesma coisa.
O
ideal da pós-modernidade é o estar junto, independente da plataforma, e esse
movimento tem vindo dessas tribos, do seus ganhos de espaço, voz e força para
humanização do sujeito, de seus direitos e deveres. Há uma mudança e uma troca
de pele em curso. Está em andamento a autóctone
– algo vinculado a essa terra, a sua preservação e também, unido ao sensível,
aos humores individuais e sociais, onde todos ocupando o mesmo lugar. Precisamos
lançar um olhar atendo a essas tribos, à esses fãs e perceber a essência em
nome de um bem comum, que traga o emocional para perto e apreendermos, a nós e
ao outro, como tecido social (e pessoal) dotado de razão e emoção e não sejamos escravo das ideias.

